“Até ao ano de 1728 da era vulgar em que Deus Nosso Senhor
quis mostrar neste sítio a sua omnipotência era este lugar deserto cujos matos
davam pastagem aos gados do povo desta ribeira de Godim que neste tempo pertencia
à freguesia de S. Sebastião de Regueira de Pontes deste Bispado de Leiria
donde então era Bispo o Ex.mo Sr. D.Álvaro Abranges e lhe sucedeu o Ex.mo
Sr. D. João de nossa Senhora da Porta, depois Arcebispo de Évora cidade, Cardeal
da Cunha, Regedor das justiças e Inquisidor geral que foi o mesmo que fez
este templo freguesia depois de passados alguns anos de sua erecção.
Neste mesmo ano que era 1728 vivia na falda deste monte na
frente deste mesmo templo um homem chamado Manuel Francisco Maio, que era
leso da cintura para baixo, que apenas se podia mover em cima duma cortiça,
ajudado só das suas mãos e assim passava uma vida mendigando. Um dia , dia
deste mesmo ano saio este homem para a sua costumada tarefa de pedir esmola
e veio arrastando -se por entre os matos até ao lugar em que agora se acha
colocada a capela mor e aqui a cortiça se lhe despedaçou e ficou inábil para
poder daqui passar. Neste mesmo tempo soavam por toda a parte os contínuos
milagres que experimentava quem com fé se valia da protecção do Sr. Jesus
de Aveiro: este aflito homem cheio da mais viva fé, dando sentidissimos ais,
gritou pelo Senhor Jesus de Aveiro, que o melhorasse e lhe prometeu que lhe
iria levar um painel se o Senhor fosse servido, que ele pudesse caminhar.
Neste mesmo tempo ( caso maravilhoso! ) ficou em profundo
sono e passados alguns minutos acordou são sem sombras de moléstia.
E logo dando louvores a Deus por tão assinalada mercê se encaminhou
para sua casa, deixando neste mesmo lugar o fragmento da cortiça, que
por descuido se não se conservou na memória. Admiraram todos
os seus vizinhos tão grande prodígio de verem são e livre
de moléstia aquele que há poucos minutos tinham visto sair arrastando-se.
E logo no dia seguinte foi ele dito Manuel Francisco Maio
ao lugar dos Balres desta mesma freguesia aonde assistia um pintor chamado
José de Abreu e lhe levou uma tábua em que o dito pintor lhe
fez a imagem ao Senhor Jesus a qual ele com muito contentamento trouxe para
sua casa. E como era muito pobre no espaço de dois anos nunca se pós
a caminho para ir levar o painel ao Senhor Jesus de Aveiro como tinha prometido:
Confessou a sua falta e seu confessor lhe determinou o coloca-se no mesmo
local onde tinha recebido o prodígio, o que ele logo fez, e no mês
de Maio de 1730 colocou neste mesmo lugar o dito painel em uma cruz tosca:
Depois de estar assim arvorada a cruz com o painel observou-se que os gados
que actualmente vinham pastar a estas charnecas vizinhas fugiam obrigados
da mosca e vinham virados para o Senhor formando um circulo em torno da cruz.
Causou isto tanta admiração a estes povos vizinhos,
que todos em ranchos vinham visitar o Senhor a quem neste tempo chamava-se
o Senhor do Maio. E como o Senhor foi servido logo fazer inumeráveis
mercês a quem o invoca com viva fé todos exclamavam, Senhor dos
Milagres ! E os mesmos que receberam os prodígios lhe puseram este
soberano titulo : E em pouco tempo foram tão copiosas as esmolas de
dinheiro, trigo, milho, cera, azeite, novilhos e outros generosos que logo
se deu principio a este famoso templo, para cuja erecção chamaram
o mestre José da Silva, do lugar do Juncal, que foi o que construiu
esta obra, mais o mestre Joaquim da Silva, seu filho até ao estado
presente.
Era assombro ver naqueles tempos a multidão
dos enfermos que de muitas partes vinham a este sitio implorar a misericórdia
do Senhor, deixando os aleijados aqui ficar as suas muletas e outros apresentando-lhes
muitos quadros em que ternamente confessavam os favores recebidos. E logo
que se começaram estas obras entrou a trabalhar o dito Manuel Francisco
Maio. E estando a obra já na altura da cimalha real caio uma pedra
de carrada e o levou consigo ao chão, aonde todos o esperavam morto:
e ele se levantou são e foi continuando no mesmo trabalho.
Passados alguns anos andava ele em cima duma escada armando
de cortinados o Apostolado que está por cima da dita cimalha e caindo
a escada ele ficou em cima da cimalha sem o menor perigo. Viveu este celebre
homem sempre pobre, morreu decrépito e jaz aqui mesmo. E eu José
Roiz da Silva e Sousa, neto do dito mestre José da Silva fiz este azulejo
e o mandei aqui colocar na era de 1795, e escrevi fielmente esta história
escrita pelo rev.Luiz Gomes, tesoureiro actual desta igreja, sendo bispo de
Leiria o Ex.mo Sr. Manuel de Aguiar inimitável devoto e zeloso do culto
de Deus que para sempre vive e viva.”
Transcrição dos Painéis
de Azulejos da Capela-mor do Santuário