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«Durante dezenas de anos, e hoje
ainda, não houve nem há melhoramento em Leiria, desde
o simples arruamento à mais importante realização,
não só na cidade como no concelho, que o Padre Lacerda
não tivesse, ou tomado a iniciativa, tantas vezes, ou dado uma
palavra de ajuda e louvor, ou ainda, quando era caso disso, feito uma
crítica construtiva e desassombrada.»
Duarte de Ulmar, em O Mensageiro,
Junho de 1971
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As invasões francesas no principio do século
passado deixou marcas indeléveis entre a população da
nossa região, recordadas por muitas dezenas de anos. Pelos dados então
recolhidos sabemos que, antes da invasão , no começo de Outubro
de 1810, nos Milagres, havia 524 homens, 592 mulheres e 304 agregados familiares
ou fogos. Depois da retirada dos invasores, em fins de Junho do ano de 1811,
havia 273 homens, 326 mulheres e 160 fogos. Pessoas mortas imediatamente na
área da freguesia 18 e pessoas mortas de doenças naquele período
502. Vê-se, por este apontamento, que o povo dos Milagres terá
sofrido, além do pavor e das aflições com a presença
estrangeira, a perda de bastantes pessoas, não contando os danos provavelmente
causados nos bens pessoais, já que os militares franceses se sustentam,
então, enquanto por cá estiveram, com cereal, as aves e outros
animais domésticos da população local.
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O Padre Lacerda, beneficiou em grande medida, o povo da
freguesia dos Milagres a quem ele designava por “o meu povo soberano”
com a graça e a subtileza que o caracterizava. Este padre, amigo do
povo, no inverno apressava-se a contactar os amigos mais afortunados a pedir
agasalhos para os paroquianos mais necessitados. E os seu pedido nunca o deixou
de maõs vazias, nessa cruzada de bem fazer. Torturavam-no as dores
alheias. E não gostava de pregar a estômagos vazios. Muitos outros
gestos prenhes de generosidade e de amor do próximo fizeram do padre
Lacerda figura de relevo entre os seus pares. Destaca-se entre outros a “Sopa
dos pobres ”, uma instituição “Sui generis”
com regras próprias por ele criadas e que ao menos uma vez por semana,
aos domingos, no período do ano de maiores carências, podia aquecer
o estômago dos seus pobres, sopa que nesse dia era também a sua.
Tinha a particularidade de ser confeccionada e oferecida pelos paroquianos
de mais possibilidades económicas . Desta forma o padre Lacerda fazia
participar no exercício da caridade aqueles aquém Deus no seu
dizer tinha cumulado de maiores bens. Entrou na paróquia antes da guerra
mundial e partiu para França junto dos membros do corpo expedicionário
português, lutou pela restauração da diocese de Leiria
e é da autoria deste padre um dos mais importantes inquéritos
aos videntes de Fátima em 1917. Era um jornalista, uma pessoa muito
influente, tinha muita aceitação, mesmo nos locais do poder,
e é da acção deste padre que a romaria chegou aos nossos
dias e que todos os anos reúne milhares devotos ao Senhor Jesus dos
Milagres. O estrangulamento duma hérnia pôs-lhe termo à
vida a 20 de Setembro de 1971, precisamente no dia da festa anual do Senhor
dos Milagres.
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"Breves apontamentos para a história da fundação
da igreja do Senhor Jesus dos Milagres no Concelho de Leiria", é
o nome de um livro escrito pelo Padre José Ferreira de Lacerda, impresso
em Agosto de 1913 pela Tipografia Leiriense. Constam neste, uma série
de registos dedicados "aos devotos do Senhor Jesus dos Milagres e
a todos aqueles que, por ocasião dos festejos, que anualmente são
feitos em honra do mesmo Senhor, acorrem à sua Igreja em piedosa romaria...".
O livro tem 65 páginas e é dividido por vários capítulos,
fala de doze manuscritos: cinco livros de receita, um livro dos termos, três
livros de despesas, um livro dos confrades e dois livros das missas. Existiam
mais registos que desapareceram devido as invasões francesas. "Deixaram
fundos vestígios da sua passagem nesta freguezia os francezes, por
ocasião da invasão. Queimaram o registo paroquial, partiram
o naris a todos os anjos que se encontravam nos ornatos dos pulpitos e nas
horas d`ocio do roubo e da pilhagem entretinham-se a quebrar as quinas das
colunas que sustentam os arcos. Triste divertimento! Desapareceram todos os
ornatos do templo, como damascos, sedas, joias e a igreja ficou tão
pobre que nem uma pálida figura era da grandeza d`outrora."
Este livro também fala da origem dos Milagres "... a que o
povo chama Sitio. Local ermo e deserto, vegetava ahi unicamente a urze, o
tojo e outros arbustos, onde os rebanhos vinham pastar..." Sabemos
através dos registos que as obras do Santuário do Senhor Jesus
dos Milagres foram dirigidas pelo mestre José Silva até Junho
de 1750, mês em que a freguesia dos Milagres foi erecta, vencia na altura
"... o jornal de 350 réis...", nesse "...
ano foi substituído por seu filho Joaquim que tomou de empreitada as
varandas e frontespicio da igreja vencendo quando não trabalhava de
empreitada a jorna de 300 réis. Manuel Francisco Mayo, que trabalhou
sempre na construção, ganhava 100 réis e trabalhava ainda
em 1761, assistindo pois à creação da freguesia. Quantas
vezes não teria ele narrado o que lhe acontecera!" Os breves
apontamentos escritos pelo Padre Lacerda são ainda hoje uma forma de
dar a conhecer a origem dos Milagres, registos que devemos preservar e manter
no tempo.
Nota: Este livro foi reeditado em Junho de 2007 pela
Fábrica da Igreja.
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Milagres foi a única freguesia rural do distrito
e Diocese, que viu nascer um jornal semanário. O fundador d` O Mensageiro
foi o Cónego José Ferreira de Lacerda, que levou por diante
a ideia de criar um órgão de imprensa para defender ardorosamente
os interesses da nossa região, em especial a restauração
do Bispado Leiriense, finalidade alcançada com bastante sucesso.
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Havia a tradição de secar o milho nos claustros da igreja
dos Milagres e por tal seca era obtida a denominada maquia em alqueires de
milho para a igreja. O espaço era realmente muito soalheiro e nem todos tinham
eiras para a seca do precioso cereal para alimentar o gado e fazer a saborosa
broa, que ainda hoje está presente em todas as mesas para acompanhar muitos
e especiais pratos.
"Á descoberta
da Freguesia dos Milagres", Renato Paz
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Todos os dias catorze do mês havia uma feira de venda de
gado que se realizava nas traseiras da igreja. Era uma grande feira à qual
vinham ricos negociantes de toda a parte para vender ou negociar gado bovino,
suíno, asinino de capoeira e de toda a sorte. Essa feira foi desaparecendo
progressivamente como todas as outras feiras de gado em redor dos Milagres.
Os hábitos de vida foram mudando. Hoje resta-nos a memória desses dias de
bulício de maior alegria para os que faziam melhor negócio e menor ou maior
tristeza para os que pior negócio faziam.
."Á
descoberta da Freguesia dos Milagres", Renato Paz
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O primeiro cemitério de que há provas nos registos paroquiais,
foi debaixo dos alpendres da igreja dos Milagres, o segundo no caminho para
o Brejo depois do Chão da Feira junto à propriedade do t´Zé Manso e o último
é o actual que todos conhecemos. Teria havido um quarto e primeiro de todos
no vale da ti Maria da Graça do Marau. Onde provavelmente se sepultariam as
gentes das Quintas, o maior povoado que existiu nas proximidades da actual
povoação dos Milagres.
."Á
descoberta da Freguesia dos Milagres", Renato Paz
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